terça-feira, 9 de julho de 2019

A primeira prece.

Na madrugada, o homem, sequioso de aventuras, chegou ao deserto de Gila, no Novo México.

Estacionou o caminhão e iniciou a caminhada de trinta e dois quilômetros, para se encontrar em um acampamento, com seu grupo de alunos.

O verão era implacável e o sol ardia como fogo. O professor começou a sentir que as botas não eram as ideais para aquele clima. Parou, arejou os pés, colocou outras meias, acelerou o passo, reduziu a marcha. Nada funcionou.

Ao cair da noite, chegou ao acampamento. Os pés estavam uma chaga viva. Eram bolhas e machucados o que viu quando descalçou as botas.

Apesar de tudo nada comentou com ninguém.

Dialogou com os instrutores e com os garotos. A madrugada o surpreendeu em repouso.

Quando a manhã se fez clara, veio o alarme. Um dos garotos sumira.

O professor sentiu o peso da responsabilidade, antevendo as ameaças do deserto cruel que o menino iria enfrentar. Calçou as botas outra vez e teve a impressão de estar andando sobre vidro quente. Tropeçou, arrastou os pés. Tentou pensar em algo para se distrair, esquecer a dor. Tudo em vão.

A dor foi se tornando sempre maior, insuportável.

Finalmente, ele alcançou a trilha que saía de uns arbustos e seguiu direto ao rio que descia das montanhas, através de sombrios desfiladeiros.

Ao ver a água, colocou os pés calçados dentro dela. Esperava alívio mas a sensação foi de milhares de agulhadas perfurando-lhe as bolhas.

Deixou escapar um grito estridente do peito e se jogou na água, por inteiro. A dor aumentou.

Não havia solução. Ele não conseguia mais andar e onde se encontrava, com certeza demoraria dias para ser encontrado.

E o garoto? Era preciso encontrar o garoto.

Uma ideia tomou vulto em seu cérebro e ele começou a implorar, até sua voz ecoar num brado sempre mais alto:

Um cavalo. Por piedade. Preciso de um cavalo.

Depois, como um lamento, colocou toda sua alma na palavra seguinte:

Jesus!

E prosseguiu repetindo:

Jesus. Um cavalo. Jesus.

Era a primeira vez que orava.

Um cavalo apareceu. Era real. Não era alucinação. Ele o montou por toda a noite, até encontrar o garoto.

Cedo, dois vaqueiros procuraram o animal que lhes fugira, não saberiam eles dizer o porquê.

Mas o professor sabia. Sua prece fora ouvida e atendida. Por isso, emocionado, ali mesmo, pronunciou a segunda prece de sua vida: a prece da gratidão.

                                                                *   *   *

Você sabia que a oração deveria fazer parte de nossa vida?

Que orar jamais deveria ser nosso último recurso, mas o primeiro a ser buscado?

E que a prece movimenta profundas forças que concorrem para reverter quadros enfermiços, enquanto alimenta com novo vigor a esperança e restabelece o bom ânimo?

Redação do Momento Espírita.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Autoeducação.

Não há, basicamente, em nenhum nível, uma outra educação que não seja a autoeducação.

Toda educação é autoeducação e nós, como professores e educadores, somos, em realidade, apenas o entorno da criança educando-se a si própria.

Devemos criar o mais propício ambiente para que a criança eduque-se junto a nós, da maneira como ela precisa educar-se por meio de seu destino interior.

                                                                        *   *   *

A lição trazida por Rudolph Steiner, importante educador, filósofo e artista, criador da Pedagogia Waldorf, exige nossa atenção e estudo aprofundados.

O processo da educação não ocorre de fora para dentro e nem de uma única via. Todos nós nos auto educamos juntos.

Assim, tanto a função dos pais, os primeiros educadores, como a dos professores, da escola, é proporcionar esse entorno rico, propício para que a criança se auto eduque.

Outro grande educador, Johann Heinrich Pestalozzi, acreditava que a escola deveria ser a extensão do lar, propiciando um ambiente familiar para oferecer uma atmosfera de segurança e afeto.

Ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, o pensador suíço não concordava totalmente com o elogio da razão humana. Para ele, só o amor tinha força salvadora, capaz de levar o homem à plena realização moral.

Aí estaria então o ambiente propício para que a criança pudesse se educar junto ao educador.

Por fim, Allan Kardec, aluno de Pestalozzi, trará no âmago da obra espírita esse mesmo viés de pensamento.

Segundo ele, a educação que apresenta a chave do progresso moral não é a do intelecto e nem mesmo a educação moral pelos livros, mas aquela que consiste na arte de manejar os caracteres.

E caracteres, qualidades, tendências, não se manejam de fora para dentro. Ninguém deixa de ser orgulhoso, vaidoso porque leu em livros ou porque foi forçado por educadores.

Aliás, essa forma tradicional de lidar com as imperfeições da alma, escondendo-as ou mascarando-as, traz maiores problemas naqueles que desejamos modificar as más tendências ou os vícios.

Verdadeiramente, somente mudamos quando nos auto descobrimos. O auto descobrimento ou autoconhecimento é que propicia a autoeducação.

Dessa forma, educandos e educadores devemos mergulhar nesse processo rico de descoberta interior, um auxiliando o outro. Obviamente, o mais preparado, com maior experiência nas coisas da vida, terá condições de orientar o processo, de provocar a reflexão e proporcionar experimentações, vivências, que façam com que a autoeducação aconteça.

                                                                        *   *   *

Que se faça pela moral tanto quanto se faz pela inteligência e se verá que, se existem naturezas que se recusam a aceitá-las, há, mais do que se pensa, as que exigem apenas uma boa cultura para produzir bons frutos.

Eis o papel do educador, a boa cultura, o solo fértil, o entorno saudável para que a nova planta possa se desenvolver ou se autodesenvolver.

Redação do Momento Espírita.

terça-feira, 25 de junho de 2019

A recompensa da gratidão.

Ela viera das terras distantes de Cesaréia de Filipe, na Decápole. Era considerada impura, pois há doze anos um fluxo sanguíneo não a deixava. Recorrera a todos os métodos possíveis, na ânsia da cura.

Tudo inútil. Seu mal era considerado um sinal de desventura, um castigo divino.

Após ter gasto tudo que possuía, ela resolvera buscar a próspera Cafarnaum, na esperança de encontrar um remédio ainda não experimentado, um médico ainda não consultado.

Chegou à cidade no momento em que o sublime profeta de Nazaré acabava de saltar nas brancas praias de Cafarnaum.

Pelos caminhos, ela ouvira falar d'Aquele Homem, pela boca dos que tinham sido abençoados por Suas mãos e haviam recuperado a saúde.

O povo se comprime. Todos almejam chegar mais perto. A figura de Jesus se destaca com Sua túnica tecida sem costura, seu manto quadrangular de borlas tecidas em fios de linho.

A mulher tenta se aproximar d'Ele. O coração parece lhe saltar do peito. O que dizer-lhe? Como falar da sua desdita, expondo-se, em meio a tanta gente?

Ela já fora tão humilhada. As marcas da problemática orgânica lhe denunciavam a enfermidade. Estava descarnada, anêmica.

Ela acreditava n'Ele. Parecia sentir que uma força extraordinária se desprendia d'Ele. Todo Ele era grandeza. Almejava gritar, tocá-lO. Isto: tocá-lO seria suficiente para que se curasse.

Então, numa rua estreita, enquanto a multidão se adensava cada vez mais, ela aproximou-se e por trás, alongou o braço esquálido e lhe tocou as vestes com a ponta dos dedos.

Maravilha! O sangue estancou de imediato. A dor se foi. Uma sensação estranha a dominou. Sentiu-se renovada. Foram alguns segundos de êxtase. Logo, a voz d'Ele se destacou na multidão:

Quem me tocou?

Os discípulos dizem que é impossível saber, pois todos O apertam, comprimem.

Ela se atira aos pés d'Ele e confessa:

Fui eu, Senhor. Guardava a certeza que, em tocando-te as vestes, recuperaria a saúde.

Jesus a envolve em Seu olhar e a sossega:

Filha, vai em paz. A fé te salvou. Fica livre do teu mal!

Algum tempo depois, Ele foi preso. Às horas de angústia da incerteza do destino d'Ele, se seguiu a cruel subida até à Colina da Caveira.

Sob o peso do madeiro que carrega, enfraquecido por não ter se alimentado desde a noite anterior e pelas longas horas de flagelação, ele cai.

Ela não se contém. Burla a vigilância dos soldados e corre-lhe ao encontro. Com uma toalha branca, limpa-lhe a face ensanguentada e dorida.

Quando a retira, nela estava estampado o rosto d'Ele, tingido pelo sangue.

Vai em paz! Lembrar-me-ei de ti...- Escuta ela em seu coração.

                                                              *   *   *

Antigas tradições cristãs dizem que essa mulher se chamava Serápia e que, a partir desse episódio, ficou conhecida como Verônica, que quer dizer: Verdadeira imagem.

Verônica ou Berenice – Que importa? O que ressalta é o exemplo de gratidão que se permite externar.

Ela acompanha o Mestre, na Sua caminhada dolorosa, afronta a soldadesca, tudo para limpar o rosto d'Aquele que um dia a envolvera em Seu olhar amoroso, desejando-lhe paz.

Ele lhe retribui o gesto, deixando impresso Seu semblante na toalha alvinitente. A recompensa da gratidão.

Redação do Momento Espírita

terça-feira, 18 de junho de 2019

Soltei o mundo para segurar sua mão.

Até sua chegada, o mundo me carregava e eu carregava o mundo e nada mais...

Tantos atrativos, tantas possibilidades, tantas distrações...

Curioso, mas, ter possibilidades é, ao mesmo tempo, ter tudo e ter nada, porque poder escolher caminhos ainda não é caminhar.

Porém, quando você chegou, tudo mudou.

Soltei o mundo para segurar sua mão.

Decidi que as coisas do mundo podem esperar, e enquanto esperam eu vou adiante e vou com você.

Segurar sua mão é encontrar sentido na vida, é perceber que quando se caminha junto se caminha melhor.

Segurar sua mão é me entregar a algo maior do que eu, pois “nós” sempre será mais grandioso do que apenas “eu”.

                                                                          *   *   *

Quando se forma uma nova família deixamos muitas coisas para trás. Muitos falam de perdas.

Quando trocamos o eu pelo nós somos convidados a desenvolver inúmeras virtudes da alma, virtudes fundamentais para nossa felicidade.

Muitas pessoas alegam que deixaram sonhos de lado para investir no projeto de vida dos filhos. Coisas que gostariam muito de ser ou de fazer e que agora ficam de lado.

Entendem que isso são as tais perdas ou sacrifícios.

Ao longo de nosso amadurecimento, vamos percebendo que muitos desses sonhos eram egoístas, vazios ou sem muita base de sustento. Eram desejos de um coração imaturo, inexperiente e nada mais.

Muitos desses nossos anelos que deixamos à margem do caminho não nos levariam a lugar algum, ou não nos fariam tão felizes como podemos ser agora com esse grande emprego que abraçamos.

Falamos de profissões ou ofícios que gostaríamos de ter seguido, de investimentos na carreira que deixamos de fazer, mas será que tais aplicações de tempo e trabalho seriam tão valiosas como a da família?

Pode ser que sim, pode ser que não.

E por que não entender a família como um ofício? Como um investimento na carreira? A carreira de homens e mulheres de bem.

Não são as grandes descobertas da ciência, da tecnologia, que melhoram o mundo. Engano nosso. É o autoaprimoramento e o aperfeiçoamento das relações que têm o poder transformador.

Se burilarmos apenas o intelecto podemos ser considerados inteligentes, avançados, porém, sem a moralidade sempre seremos infelizes.

A família é o campo de desenvolvimento da moral, e quando soltamos as coisas do mundo, principalmente as fúteis, efêmeras, para segurar na mão dos irmãos de caminhada, iniciamos o verdadeiro caminhar para o desenvolvimento da alma.

Antes de ficarmos lamentando o que deixamos para trás, enxerguemos o que estamos construindo para o futuro.

                                                                          *   *   *

Soltei o mundo para segurar sua mão.

Decidi que as coisas do mundo podem esperar, e enquanto esperam eu vou adiante e vou com você.

Segurar sua mão é encontrar sentido na vida, é perceber que quando se caminha junto se caminha melhor.

Segurar sua mão é me entregar a algo maior do que eu, pois “nós” sempre será mais grandioso do que apenas “eu”.

Redação do Momento Espírita.

terça-feira, 11 de junho de 2019

Tributo à vida.

Era somente um rapaz e nos chamou a atenção porque pulou a grade de segurança da extensa ponte, saltando para um dos pilares, na parte de dentro do rio.

Notava-se que a chuva insistente, do dia anterior, tornara as águas turbulentas. Ficamos curiosos em saber o que faria aquele jovem.

E nos pusemos a observá-lo, do local onde nos encontrávamos.

Ele deslizou pelo alto pilar até a base. Depois, procurando, com o olhar, o melhor caminho, mesmo sem calçar botas, foi andando entre a água e as pedras mais próximas à margem.

Somente então nos demos conta do motivo de tudo aquilo. Ali, em meio à vegetação, estava um cãozinho assustado, olhando as águas.

O rapaz se aproximou, o chamou e o acarinhou, no intuito de lhe conquistar a confiança.

Depois, o abrigou entre seus braços e retornou para a base do pilar.

Agora sim, ele se deparou com o grande problema. Ele pensara no resgate do animal, mas não em como poderia retornar para o alto da ponte.

Ele descera sem nada e não havia saliências entre as pedras do pilar para ele se apoiar e subir.

Menos ainda sustentando o pequeno animal.

Nesse momento, outros adolescentes, que passavam pela ponte, se uniram ao resgate.

Um deles desceu até o pilar, apanhou o cão, entregou-o em segurança aos colegas, do lado de dentro da grade de proteção.

Retornou, estendeu os braços e foi puxando o rapaz para cima.

Para conseguirem chegar até a segurança da ponte, foi preciso que dois se unissem e depois, enfim, comemoraram o êxito alcançado, abraçando-se.

Enquanto tudo isso acontecia, e foram longos e preciosos minutos, ninguém mais parou. Os carros continuaram a transitar, as pessoas a se locomoverem.

Somente aqueles meninos viram o que estava acontecendo. Meninos que passavam, seguindo para a escola ou para lugar nenhum. Não sabemos.

O detalhe é que eles tiveram olhos de ver e se uniram em um resgate a alguém que teve o ímpeto de salvar um filhote assustado e perdido que, talvez tivesse perecido ali mesmo.

                                                                      *   *   *

Já nos perguntamos, alguma vez, quanto vale uma vida? Quando assistimos a tantas cenas cotidianas que parecem nos dizer que ela não vale nada; quando tantos filmes enaltecem o resolver da violência com mais violência e a morte dos considerados maus elementos; as histórias que apresentam como atos heroicos o suicídio assistido, é de nos emocionarmos constatar nossa juventude reverenciando a vida.

Se dá valor a um animal, se arrisca a própria segurança para salvá-lo; se demonstra preocupação com alguém que precisa de ajuda, isso nos diz que nosso mundo está recheado de boas pessoas, de gente que pensa no semelhante, que esquece o compromisso imediato para louvar a vida, num gesto de desprendimento.

O que recebe em troca? No caso do cãozinho, muitas lambidas, latidos e pulos.

Em se falando do bem maior, as vidas que foram preservadas, um hino que sobe aos céus e retorna em bênçãos generosas sobre a Humanidade.

Sim, sobre todos, porque toda vez que um gesto bom é concretizado, a Humanidade inteira se beneficia.

Pensemos nisso e saiamos a louvar a vida humana, animal, vegetal.

Ela é precioso dom da Divindade.
Redação do Momento Espírita.

Doe Sangue

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