terça-feira, 1 de agosto de 2017

Os primeiros lugares.

Contou-nos uma pessoa, que foi trabalhar algum tempo num país europeu e que várias vezes identificou marcantes diferenças entre as atitudes deles e as nossas.
A forma de resolver problemas, a maneira de conduzir-se perante determinadas dificuldades no ambiente de trabalho etc.
Nas suas observações, percebeu que tinham alguns comportamentos muito próprios e incomuns entre nós.
Em verdade, ela jamais imaginara que com eles aprenderia uma extraordinária lição. Algo que a faria admirá-los e seguir-lhes o exemplo.
No seu primeiro dia de trabalho, um colega da empresa a veio apanhar em casa e eles seguiram, juntos, no carro dele.
Ao chegarem, ele entrou no estacionamento, uma área ampla para mais de duzentos carros.
Como haviam chegado cedo, poucos veículos estavam estacionados, entretanto, o rapaz deixou o seu carro parado logo na entrada, próximo ao portão.
Assim, ambos tiveram que caminhar um trecho considerável, até chegarem efetivamente à porta da empresa.
No segundo dia, o fato se repetiu. Eles tornaram a chegar cedo e, novamente, o carro foi deixado próximo da entrada do estacionamento.
Outra vez tiveram que atravessar todo o extenso pátio até chegarem ao escritório.
No terceiro dia, bastante intrigada, ela não se conteve e perguntou ao colega:
Por que você deixa o carro tão distante, quando há tantas vagas disponíveis? Por que não escolhe uma vaga mais próxima do acesso ao nosso local de trabalho?
A resposta foi franca e rápida:
O motivo é muito simples. Nós chegamos cedo e temos tempo para andar, sem perigo de nos atrasarmos. Alguns dos nossos colegas chegam quase em cima da hora e se tiverem que andar um trecho longo, correm o risco de se atrasarem.
Assim, é bom que encontrem vagas bem mais próximas, ganhando tempo.
*   *   *
O gesto pode ser qualificado de companheirismo, coleguismo. Não importa. O que tem verdadeira importância é a consciência de colaboração.
Ela recordou que, algumas vezes, em estacionamentos, no Brasil, vira vagas para deficientes sendo utilizadas por pessoas não deficientes.
Só por serem mais próximas, ou mais cômodas.
Recordou dos bancos reservados a idosos, gestantes em nossos transportes coletivos e utilizados por jovens e crianças, sem preocupação alguma.
Lembrou de poltronas de teatros e outros locais de espetáculos tomadas quase de assalto, pelos mais ágeis, em detrimento de pessoas com certas dificuldades de locomoção.
Pensou em tantas coisas. Reflexionou. Ponderou...
*   *   *
E nós? Como agimos em nossas andanças pelas vias do mundo? Somos dos que buscamos sempre os lugares mais privilegiados, sem pensar nos outros?
Alguma vez pensamos em nos acomodar nas cadeiras do centro do salão, quando vamos a uma conferência, pensando que os que chegarem em cima da hora, ocuparão as pontas, com maior facilidade?
Pensamos, em alguma oportunidade, em ceder a nossa vez no caixa do supermercado a uma mãe com criança ou alguém que expresse a sua necessidade de sair com mais rapidez?
Pensemos nisso. Mesmo porque, há pouco mais de dois milênios, um rei que se fez carpinteiro, ensinou sabiamente:
Quando fordes convidados a um banquete, não vos assenteis nos primeiros lugares...
O ensino vale para cada dia e situação das nossas vidas.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Ética, urgentemente !

Ética é a parte da filosofia que estuda os valores morais e os princípios ideais de conduta humana.
Enquanto a moral diz o que fazer, a ética ensina como viver, ambas tendo como objetivo maior a felicidade do indivíduo.
Aristóteles entendia que todas as coisas tendem para o bem, isto é, o bem é a finalidade de todas as coisas. A ética, neste contexto, é o caminho para alcançar este bem maior.
O bem leva cada indivíduo a ser capaz de viver com os outros.
A ética, no campo individual, prepara terreno para a política, no campo coletivo.
Para Aristóteles, a finalidade da política é a busca do bem de todos os homens. E qual é esse bem? A felicidade. Felicidade não como um sentimento passageiro, que se instala e vai embora, ao contrário, é obra de uma vida inteira.
O homem é o único animal ético que existe. Essa consciência ética nele existe em potencial, aguardando que seja desenvolvida mediante e após o auto descobrimento, a aquisição de valores e virtudes.
Sem ética o homem apresenta conflitos que o atormentam, dificultando-lhe discernir entre o certo e o errado, o bem e o mal, o bom e o pernicioso.
Ainda dominado pelo egocentrismo da infância, de que não se libertou, pensa que o mundo existe para que ele o desfrute, e as pessoas para que o sirvam, disputando e tomando à força, o que supõe lhe pertencer.
Uma conduta ética, por sua vez, permite que ele busque sua felicidade jamais prejudicando a felicidade dos outros.
Uma conduta ética permite que tenha a liberdade de não precisar esconder nada de ninguém, de fazer o certo mesmo que ninguém esteja olhando ou julgando.
Aprendemos que as leis de Deus se encontram inscritas na consciência do homem. As leis são o código moral. A vida ética é aquela que lhe permite viver em paz com sua consciência.
*   *   *
Precisamos de ética, urgentemente.
A vida feliz não está na busca dos prazeres materiais, mas na conquista das virtudes da alma, que nos permitem viver em harmonia conosco mesmos e com o próximo.
Certo e errado são apenas direções que nos apontam para a felicidade ou para longe dela.
Na vida de relação, o respeito à felicidade alheia promove, indiretamente, a obtenção da nossa própria.
A vida ética é mais simples. A vida sem ética é complexa, repleta de segredos, de aflições, de expectativas e receios.
Tudo se torna frágil. A mentira pode ser descoberta. Os segredos podem ser revelados. Podemos ser desmascarados a qualquer momento.
Só vive em paz consigo mesmo e com o mundo quem é ético.
Precisamos de ética, urgentemente. E ética se ensina e se aprende, essencialmente, através do exemplo e desde quando estamos no ventre materno.
Assim, aqueles que somos pais, não nos preocupemos apenas com o mundo que estamos deixando para nossos filhos mas, principalmente, com os filhos que estamos deixando para o mundo.
Se queremos representantes e administradores mais éticos, eduquemos aqueles que logo mais estarão nessas importantes posições.
Se queremos uma sociedade, um país mais ético, comecemos por nós mesmos.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Ter e ser.

É um desafio muito difícil, dizia aquela senhora de cabelos nevados pelo tempo, falando do convívio entre pessoas com diferentes objetivos de vida.
Comentava que quando se casara, imaginou que seria fácil fazer o companheiro ver o mundo com outros olhos.
Porém, a realidade na sucessão dos dias, foi mostrando que as mudanças somente acontecem quando as pessoas querem.
Ela fora professora e se entregava, de coração, ao trabalho voluntário, auxiliando os demais a enfrentar a vida com alegria.
Seu companheiro, no entanto, era comerciante e seu sonho era a autorrealização no campo das finanças.
Para ele, todos deveriam lutar pelas conquistas materiais para favorecer a vida na velhice.
Por isso, cobrava dela mais colaboração na conquista de bens que pudessem constituir riqueza.
Passados anos, idosa, ela lhe disse que desejaria cursar uma faculdade. Era seu sonho.
Dele recebeu somente críticas pela sua maneira de encarar a vida como se fosse uma fantasia.
Será que ela não percebia que estava próxima da idade de morrer? Para que criar ilusões?
Ela silenciou, com o coração retalhado.
Mais tarde, com os ânimos amenizados, ela lhe disse que a diferença de visão entre eles, era somente de uma letra.
E explicou: Você sempre lutou por ter mais. Mais dinheiro, mais propriedades, mais títulos. Quanto a mim, o meu sonho era e continua sendo somente ser. Ser melhor, intelectual e moralmente.
*   *   *
Nesta vida, presos à realidade material, quase todos ficamos aturdidos e nos enamoramos pelas posses terrenas.
A busca que nos encanta é a do poder.
Lutamos incansavelmente, nos jogando na tarefa de possuir tudo o que nos possa destacar.
O poder do dinheiro nos faz sentir uma falsa superioridade junto aos demais, porque podemos adquirir o que quisermos.
Dizem os sábios que quando desejarmos conhecer profundamente um indivíduo basta lhe conferirmos qualquer poder.
São ilusões materiais que cegam e nos apresentam esse suposto ar de superioridade.
Jesus, que conhecia profundamente as almas humanas, alertou-nos a respeito das posses que deveríamos acumular.
Seus ensinamentos visavam as riquezas espirituais, as únicas que, depois de conquistadas, nada, nem ninguém, nos poderá retirar.
Disse-nos dos talentos que devemos trabalhar em nós, a fim de nos enriquecermos intimamente.
Naturalmente, enquanto na Terra, necessitamos buscar meios honestos de ganharmos o pão de cada dia, garantindo-nos o sustento.
Porém, como somos estrangeiros, passando uma temporada na Terra, não podemos nos descuidar da bagagem que levaremos ao retornar à casa verdadeira, que nos aguarda.
Essa bagagem é constituída do conhecimento que adquirirmos, dos sentimentos que burilarmos e do bem que fizermos.
Somos Espíritos imortais em busca de luz.
Somente o amor e a sabedoria têm o poder de nos conferir enriquecimento definitivo.
Saibamos optar pelo caminho que nos faça brilhar interiormente, irradiando luz ao nosso redor.
E, então, simplesmente, sejamos felizes.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Pé de barro, pé no barro.

Vivemos um tempo curioso. Após a chegada do homem à lua, do telescópio Hubble ter ajudado a desvendar o espaço, de uma grande expansão de nosso conhecimento do Universo, nos decepcionamos com o que encontramos. Esperávamos algo divino, maravilhoso.
Esperávamos, na ratificação de nossa imaginação fértil, algo de civilizações intergalácticas, de descobertas de outros mundos, como um Cabral ou um Colombo moderno à busca de novas civilizações. Mas encontramos rochas e gases, e fomos buscar abrigos em teorias conspiratórias e fábulas modernas, sem ver a magnitude do que encontramos.
Da mesma forma, a profusão das comunicações; as redes nos colocaram em tempo real em contato com a natureza humana. Ponto a ponto, sem filtros, viralizamos e nos comparamos com o vizinho nas redes sociais, e vemos do que o Espírito encarnado é capaz. Mas nos decepcionamos. Quebramos as nossas expectativas com o homem que vemos no espelho. Sentimos vergonha da raça humana. 
Sim, por ver não somente o mal, mas por vê-lo sendo propagado, comemorado e consumido, misturando o mundo real e a ficção, destruindo a crença no homem como centelha divina, com potencial para fazer mais e melhor nesse mundo. Por ver que desperdiçamos soluções e criamos problemas, e a despeito de toda a tecnologia, ainda padecemos da fome, da ignorância e da violência.
A decepção é o sentimento que habita bocas e corações. Uma tristeza infinda. Uma vontade de não se levantar, em um tempo curioso, de falta de fé, ainda que existam tantas religiões. De ídolos de “pé de barro”, ainda que existam tantas celebridades instantâneas. Uma falta de esperança, de concepção de um mundo melhor, abatido pela realidade que se descortina.
O Espiritismo, como doutrina libertadora, que concilia a vida eterna com a vida real, traz uma nova proposta de fé. Não somente por ser raciocinada. Não uma proposta de “pés de barro” e sim uma proposta de “pé no barro”, na qual essa decepção não se justifica.  Uma proposta de mundo em transformação, pelas nossas mãos e guiado pelos nossos pés.
Sim, o Espiritismo convida-nos, Espíritos encarnados, a uma fé ativa, producente. A assumir as rédeas do mundo, para romper os determinismos da natureza humana, colocando os pés no barro e mostrando que pode ser feito diferente. Um mundo que será o que nós fizermos dele. Nós, as diversas gerações que encarnam sucessivamente no planeta.
Imagine uma mulher, um negro, um indígena no Século XVII. Ele olhava também para o mundo de baixo, sem fé. E hoje, apesar dos pesares, muita coisa mudou na relação do mundo com esses grupos. A evolução se fez e se faz. Às vezes lentamente, às vezes de forma imperceptível, mas o mundo melhora e pode melhorar. Só depende de nós.
Essa lógica que o Espiritismo traz, de deixar em nossas mãos à construção de um mundo melhor, converte essa decepção em trabalho, essa falta de fé em esforço, esse vazio em sede. Temos a ideia de reencarnação, não como um dogma de sofrimento e karma determinista, mas como uma chave libertadora do sofrimento e de promoção da fraternidade.
A pergunta 171 de “O Livro dos Espíritos” traz que “(…) a doutrina da reencarnação, isto é, a que consiste em admitir para o Espírito muitas existências sucessivas, é (…) a única que pode explicar o futuro e firmar as nossas esperanças, pois que nos oferece os meios de resgatarmos os nossos erros por novas provações”. Esse resgate não é somente na dimensão individual, mas também na dimensão coletiva.
A continuidade da vida permite ao homem-espírito exercitar a sua capacidade de se reinventar, de fazer diferente, de romper barreiras e construir novas pontes entre os fossos que se apresentam. E isso exige trabalho, esforço e dedicação. A fé sem obras é morta, diz o evangelho, e, nesse sentido, temos que avançar, com o pé no barro e os olhos no céu.
Pois o nosso destino está nas estrelas. Mas o momento, aqui e agora, é que ele está sendo construído.
Marcus Vinicius de Azevedo Braga

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Onde mora a paz.

Pedro mora próximo à uma rua central de grande capital, há quinze anos.

Nos últimos tempos, está à beira de um ataque de nervos, pois não consegue mais suportar o barulho contínuo dos carros.

Ele tem algumas escolhas: trabalhar pelo fechamento da avenida, ao menos à noite; pela modificação da legislação de poluição sonora ou uso de automóveis; ou ainda, mudar-se.

É importante, porém, comentar também sobre seu vizinho, Bernardo, que mora no apartamento ao lado de Pedro, de frente para a mesma rua.

Perguntado a ele o que achava de viver naquele local, a resposta foi surpreendente.

Revelou que adora viver ali. Ele acha linda a vista que tem do seu apartamento. Disse que pode ver o maravilhoso nascer do sol de sua janela.

Adora observar a cidade. Perceber os habitantes caminhando ou em seus carros, e os resistentes passarinhos que aprenderam a viver em meio à civilização.

Numa conversa entre os dois, Pedro não aguentou, e questionou: Mas e o barulho? Você não se incomoda com toda essa barulheira que não tem fim?!

Bernardo respondeu: Olhe, fico tão concentrado nos meus afazeres, que eu nem percebo o barulho.

Pedro não podia acreditar. Achou, por um instante, que o vizinho tinha problemas auditivos, e falando bem baixo, tentou descobrir se ele era surdo.

Mas não era. Ouvia muito bem.

Como explicar isso? Ele ouvia muito bem e não se incomodava com o barulho?

E à noite? – Perguntou ainda Pedro, indignado. – Como você faz para dormir?

Vou ser bem sincero, caro amigo – respondeu Bernardo – à noite, ao deitar, sinto-me tão feliz com o dia vivido e com as coisas que tenho feito, que também não me incomodo com barulho algum.

Pedro pôde ver sinceridade e pureza nos olhos e nas palavras do vizinho.

Naquele momento, ele percebeu a razão de se incomodar tanto com aquelas coisas: ele não era feliz com o dia que tinha, e nem com as coisas que fazia.

*   *   *

Um outro personagem também ilustra a reflexão proposta.

Trata-se de Daniel. Jovem, de família abastada, casado, e morador de um condomínio fechado.

Ele foi presenteado por seus pais com uma casa no litoral. Ficou, a princípio, muito animado com a mudança.

Afinal, haveria lugar mais tranquilo e pacífico do que próximo ao mar?

Os dias passaram e ele percebeu, pouco a pouco, que não seria capaz de suportar aquele estilo de vida.

Aquele barulho constante de ondas quebrando; gaivotas gritando logo cedo; aquela umidade de maresia; a areia que insistia em acompanhá-lo em seu carro e em sua casa.

Daniel entrou em crise. Variava entre estados de irritação e depressão. Começou a tomar remédios e decidiu: iria se mudar dali.

*   *   *

Ouvindo estes relatos, nos indagamos: Onde mora a paz?

Será que a paz está na ausência de ruídos externos?

Será que para dormir em paz precisamos apenas de silêncio?

A paz tem moradia em nosso íntimo, e enquanto não formos felizes com nossos dias, com as coisas que fazemos, não a encontraremos.

Não basta mudar desse para aquele local. Faz-se necessário mudar-se na intimidade.

Deixar para trás o lar das atividades fúteis, das conquistas passageiras, e fixar morada na casinha aconchegante da alegria de viver, do amor à família, do prazer de servir.

Doe Sangue

Doe Sangue